quinta-feira, 26 de junho de 2014

Uma escola ou uma academia de treino de testes? - publicado no JL de Junho - Joana Martins

A escola que faz da quantificação dos resultados (dos alunos) o seu objectivo condena o processo de aprendizagem às
grelhas de classificação, numa perversa lógica de exclusão, exclusão dos saberes, da cooperação,
 dos alunos. Comparar a escola feita por e para examinadores com uma escola para o
progresso é comparar uma exploração agropecuária com a floresta amazónica!

Para uma análise mais profunda, deixo-vos o texto da Joana Martins

O cenário que presenciei na escola em maio fez-me recordar as histórias dos meus pais sobre o
dia em que fizeram o seu exame da 4ª classe. 40 anos depois, o cerimonial manteve-se, as
personagens mudaram: milhares de alunos de 4º e 6º ano a realizarem os exames de Português
 e de Matemática.
Esperava-se que o “mundo pulasse e avançasse”, mas as políticas educativas impuseram um
 sistema de operações de controlo, que, contrariamente às expectativas, acarretam um
empobrecimento do processo de ensino/aprendizagem, sobretudo, nos últimos 3 anos, com
 os exames de 4º e 6º ano e a adesão das escolas aos testes intermédios em vários anos de
 escolaridade. Um aluno de 9ºano pode estar sujeito à realização de 7 testes intermédios do
IAVE + 3 exames do IAVE + “fichas” e “testes” que nós, professores, aplicamos sob pretexto
 de irmos “treinando” os alunos para os exames finais. 
O resultado é um segundo e terceiro trimestres asfixiados, com muitos de nós a abdicarem
da sua criatividade e autonomia, do seu empenho no desenvolvimento de uma cidadania ativa
 para se submeterem a um modelo de ensino domesticado, trabalhando com os alunos para o
 exercício repetitivo de preparação para as provas de exame. Dispositivos de avaliação que se
 limitam a produzir juízos arbitrários sobre uma quantidade mínima de conteúdos, jamais capazes
 de avaliar o aluno enquanto cidadão. As últimas informações da OCDE alertam
precisamente para o carácter penalizador dos exames e para a sua função de exclusão social,
 visto que acabam por revelar mais do contexto socioeconómico dos alunos do que dos seus
saberes e competências. 
E podemos ainda acrescentar o pesado sistema burocrático e administrativo que toda esta
 dinâmica acarreta na vida das escolas, com a necessidade de organização de espaços, de
equipas de professores vigilantes, corretores, de um secretariado de exames… não nos
restando tempo para desenvolver a nossa cultura pedagógica, que é isso que afinal nos é exigido.
Igualmente preocupante é observar como as escolas, enredadas neste sistema de
controlo, acrescentam a obrigatoriedade de testes iguais para todas as turmas de cada ano,
 atropelando ainda mais o percurso de ensino/aprendizagem de cada turma, de cada aluno.
 De facto, cada grupo de alunos possui interesses, necessidades e ritmos que devem ser
 respeitados.
Cabe-nos a nós, professores, a responsabilidade de tornar esta escola uma outra instituição,
 porque, efetivamente, é possível outra escola com outro modelo de avaliação,
transformadora, participada democraticamente por alunos e professor(a) que, em conjunto,
planificam, avaliam e refletem criticamente sobre o seu trabalho e o desenvolvimento
sociomoral. Uma escola sem penalizações nem exclusões, assente num trabalho cooperativo,

 onde cada um se torne consciente de que só pode alcançar os seus objetivos de
aprendizagem para o seu desenvolvimento cultural e social na escola se todos os outros
conseguirem alcançar os seus. 



Joana Martins, professora de Português do ensino secundário"

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