quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Educação na Escola da Voz do Operário

O texto não é novo, mas hoje, no 131º Aniversário da Voz, fica aqui o meu contributo para o reforço dessa Instituição que (também) na educação marca a diferença. Parabéns Voz do Operário. 


A Educação na Escola da Voz do Operário

A escolarização é genericamente aceite como uma realidade natural, positiva e necessária para o indivíduo e condição necessária para o desenvolvimento da sociedade em que se insere. O estudo da história da escola enquanto instituição revela que esta não é uma verdade linear. Os trabalhos académicos e ensaios são inúmeros e por vezes divergentes, mas na sua globalidade revelam que a instituição escolar surge e cresce como resposta às necessidades económicas da sociedade e em particular na qualificação da mão-de-obra requerida pelas estruturas e mecanismos capitalistas e constitui acima de tudo uma forma de reprodução e controlo sociais.
Estando na Europa historicamente a cargo da Igreja e mais tarde a cargo dos grandes comerciantes e industriais, directamente ou através da gestão do Estado, as instituições escolares, nomeadamente nas suas fases de massificação, procuram capacitar os alunos com as competências que a sociedade espera que venham a desempenhar na vida adulta. Esta é a origem da “escola dual” como agora se denomina, mas que há séculos existe, e que pressupõe no essencial uma formação para os que irão liderar e gerir e uma outra formação para os que irão obedecer e trabalhar.
A Escola da Voz do Operário, como outras na época, surge na fase da industrialização e vem responder às carências sentidas no que se refere à qualificação dos operários, neste caso da indústria tabaqueira. O carácter singular da sua génese está noutra dimensão: neste caso particular e (creio) único, não é o patronato a promover a criação da escola, nem como aconteceu na época, as estruturas sindicais a oferecer esse “serviço” aos operários. A génese da Escola da Voz do Operário está dentro da fábrica e surge como iniciativa dos operários que sentem que a escola os capacitaria a si e aos seus filhos com as ferramentas necessárias para reforçar a sua organização de classe e lhes permitiria aumentar a capacidade reivindicativa face às injustiças com que se confrontavam no seu trabalho e vida quotidiana. A alfabetização, em primeiro lugar e a escolarização em geral, era entendida como uma via para a melhoria das suas condições de vida e uma arma de defesa da classe.
As escolas da Voz do Operário cresceram e multiplicaram-se e foram sofrendo alterações ao longo dos anos, a par com a sociedade portuguesa. O período negro da ditadura fascista acabou com muitas escolas operárias e republicanas, mas não com todas, e a Voz do Operário, a par de outras duas ou três, sobreviveram, ainda que com custos para o ensino nelas praticado.
Hoje a sociedade é muito diferente da de 1900. Cem anos de industrialização alteraram o perfil exigido aos futuros “líderes” e “gestores” mas sobretudo modificaram o que a sociedade espera do “novo operariado”. No entanto a instituição escolar permanece praticamente inalterada no seu fundamental. Absorveu algumas novas tecnologias enquanto recursos educativos, reviu conteúdos programáticos, alargando o seu âmbito, duração e complexidade e tornou-se mais abrangente e democrática, mas as suas práticas, métodos e pressupostos não foram, no essencial, alterados.
É nesta encruzilhada que a singularidade da génese da Escola da Voz do Operário continua actual. A Escola da Voz do operário não permanece igual à de 1900, mas também não mudou assim tanto. Tendo sofrido evoluções, permaneceu, no essencial ao espírito que esteve na sua origem: afirmando-se perante a sociedade, angariando reconhecimento público que validasse a sua existência, mas respondendo em primeiro lugar às necessidades sentidas pelos trabalhadores, feitos “novos operários”, muitos já fora da fábrica e com acesso a uma cultura e formação superior à dos pioneiros, mas que consideram insuficiente ou desadequada, face às suas expectativas, a formação “elementar” disponibilizada pela generalidade das escolas públicas e privadas.
Quando a Voz do Operário se anuncia, como tantas vezes acontece, como uma escola diferente, e sem querer estar a falar em nome de terceiros, é, pelo menos em parte, isto que está subjacente a essa afirmação.
Mas esta não é uma afirmação que se possa fazer gratuitamente, e a diferença da Escola da Voz do Operário apenas continuará a existir enquanto as pessoas que nela trabalham e que da sua comunidade fazem parte: professores, auxiliares e demais trabalhadores, mas também os pais e encarregados de educação, forem fieis, agirem, defenderem e exigirem essa diferença.
Esta diferença, gerada pela necessidade da defesa da classe e da sua emancipação, com as devidas evoluções mantém-se e traduz-se no funcionamento regular e quotidiano da escola.
A fidelidade a esse espírito começa pela constituição da comunidade escolar. Muitas escolas operárias defenderam que os filhos dos operários deveriam ter escolas próprias e exclusivas, muitos outros, a quem o tempo veio dar razão, argumentaram que uma escola só para filhos de operários e de mais camadas desfavorecidas da população continuaria a ser uma escola exclusiva, que necessariamente perpetuaria o estigma da pobreza e as carências inerentes a essa condição. A escola deve assim ser profundamente inclusiva, em todas as dimensões: sexo, físicas, psicológicas, culturais e económicas. A multiplicidade e diversidade de perfis de alunos consciencializa-os para essa diversidade e fornece ferramentas e oportunidades de aprendizagem enriquecedoras e integradoras.
Constituída a comunidade escolar é necessário tomar consciência dos seus objectivos e funções. A questão a ser colocada: para que serve e para que deve servir a escola não é pacífica e já gerou inúmeros tratados. Mas face a esta pergunta não existem respostas neutrais. Educar é uma actividade e um projecto político, no sentido em constitui uma acção que projecta no futuro uma leitura colectiva face a uma realidade desejada e à continuidade ou à transformação dessa realidade. Negar esta interpretação do que é educar é também uma opção política, consciente ou não.
Na Voz do Operário o projecto educativo sempre viveu na tensão entre o seu projecto e as contingências da realidade política e social portuguesa existentes em cada um dos momentos da sua história: do período das urgências que estiveram na sua génese e que já foram mencionadas à expansão verificada na Primeira República foi um ápice e nele estão contidos os períodos de maior exuberância da educação em Portugal, a que a Voz do Operário a par com dezenas de escolas da época não são alheias. A partir de 1933 a ditadura do Estado Novo procura e em muitos casos consegue destruir o ensino progressista existente, dotando o ensino de uma imensa carga ideológica e fascizante, colocando as escolas ao serviço dos grandes grupos capitalistas, com o objectivo de formar sobretudo operários com as competências suficientes (e não mais que isso) requeridas para as áreas industriais e comerciais e sobretudo trabalhadores obedientes, disciplinados e com o “sentido patriótico do dever e abnegação”. Pobrezinhos mas honrados e respeitadores da autoridade. Foram anos difíceis para o ensino da Voz do Operário e muitas concessões foram feitas, tendo abdicado de parte significativa do seu projecto educativo inicial.
 Actualmente, a tensão entre o ideal e o possível continua a fazer sentir-se. As crescentes exigências programáticas e o enfase nos mecanismos de avaliação e selecção impostos pelo Ministério da Educação chocam com as opções originais da Voz do Operário e perante os dois pólos, as opções tomadas vacilam entre o desejável e o necessário, nem sempre de forma clara ou coerente. A opção de uma educação transformadora da realidade, uma educação inconformada com o presente, impregnada de espírito crítico é dominante e constitui a linha oficial, embora a tolerância perante práticas que contrariam este discurso continuem a existir. Ainda assim, a opção generalizada por um método de ensino “diferente” do adoptado na globalidade das restantes escolas marca de forma indelével as práticas educativas na Voz do Operário. O Método da Escola Moderna constitui uma referência e uma prática que não é em nada ingénua nem um artefacto decorativo.
As opções pedagógicas mais “profundas” do modelo pedagógico do Movimento da Escola Moderna retiram do centro da acção educativa os conteúdos e colocam-no no aluno em relação. O cerne da acção educativa, o ponto de partida e de chegada é o aluno em relação com o mundo e com os outros, é sobre essa dimensão do ser (por oposição ao ter) que a escola irá actuar. Saber relacionar-se com os outros e com o mundo, numa atitude activa, de descoberta e crítica é o eixo prioritário de desenvolvimento dos alunos da Voz do Operário. É para desenvolver ao máximo estas competências que a Escola da Voz do Operário serve. Tudo o resto, que não é pouco, vem por acréscimo. Esta opção dá primazia aos processos face aos conteúdos (tão valorizados pelo Ministério) e torna retira importância às avaliações sumativas, o que só por si pode constituir um elemento de insegurança para alguns pais e professores que, iludidos pelo aspecto concreto das notas, se esquecem que todos os números são uma representação abstracta da realidade e que a objectividade da “nota” apenas existe por ser toda a avaliação subjectiva e por essência, injusta, por deficitária face à realidade. Assim, não se opta por educar para os resultados (no sentido mensurável-quantitativo) mas sim para os processos (no sentido integral-qualitativo). 
Ao colocar o aluno no centro da acção educativa, torná-lo o motor dessa acção, rejeita a primazia dos conteúdos, e entrega à turma uma responsabilidade que na maior parte das salas de aula é da responsabilidade das editoras de manuais escolares, e (por vezes) mediada pelo professor. Uma importante responsabilidade que quando depositada no manual escolar enquanto condutor das “lições” e da direcção e ritmo do ensino-aprendizagem, é negada à turma. O primeiro passo para sermos responsáveis por nós próprios é aprender a escolher para onde queremos ir. Se negarmos essa oportunidade aos alunos, não é depois legítimo exigir que sejam responsáveis pelos resultados desse processo de ensino-aprendizagem. Este equilíbrio tão ténue entre liberdades e responsabilidades, individuais e colectivas, são um eixo central da vivência quotidiana da turma e tornam-se assim num dos eixos do currículo escolar. Os mecanismos de gestão dos conflitos, de participação, constituem uma ferramenta que preenche o vazio deixado pela menor directividade provocada pela ausência de manual escolar e pelo método adoptado. A isto irá com o passar do tempo, das vivências e do crescimento, acrescer a consciência de que o caminho pela aprendizagem é determinado pelo grupo, com participação de todos e empenho de cada um na gestão das relações que descobre e estabelece com o mundo e com os outros.

A profunda integração e valorização da dimensão social interna constitui um eixo fundamental no processo pedagógico e os mecanismos de auto e hétero avaliação responsabilizam o aluno perante a turma e a turma perante cada aluno tornando consciente que o progresso na aprendizagem é um processo partilhado e que o sucesso de cada um passa pelo sucesso do grupo. São assim reforçados os valores de solidariedade e cooperação em detrimento da competição e do “estrelato”
Para que o objectivo a que a Escola da Voz do Operário se propõe seja atingível é necessário encontrar o equilíbrio entre a liberdade e a responsabilidade, mas não basta, é necessário que desperte nos alunos, que cresça e se torne em acção o desejo de aprender e que lhes sejam fornecidas as ferramentas, os meios e os auxílios para que essa tarefa se torne gratificante. Aqui surgem como determinantes, em primeiro lugar, o grupo. Aprender, na Escola do Voz do Operário, é uma tarefa individual que se realiza em equipa. É incentivado que cada um procure e descubra para partilhar esse conhecimento com o grupo. Mas requer também um crescimento individual, Ao professor cabe providenciar a presença dos recursos e disponibilizar ao grupo os conhecimentos necessários à tarefa e monitorar o processo, balizando objectivos e conteúdos, adequando-os ao grupo e organizando, disponibilizando os recursos, gerando e gerindo as situações promotoras da aprendizagem.
O trabalho de descoberta e aprendizagem do grupo, conseguido através da aquisição de competências cada vez mais complexas nas suas dinâmicas internas e com o exterior, ao invés de alcançar as certezas da via única promove as dúvidas da multiplicidade de possibilidades abertas, procurando-se a par com esse processo que sejam desenvolvidas as competências necessárias à gestão das relações entre a criança e uma realidade que é multifacetada e multicolor, e esta será, a par com as competências interpessoais, uma “meta-aprendizagem” que se prolongará muito além da vida escolar dos alunos da Voz do Operário. Ao contrário do que acontecia com as crianças que frequentavam a escola em 1900, os actuais alunos, tal como os seus educadores, não fazem a menor ideia das competências que lhes serão exigidas no desempenho das futuras profissões, excepção feita a um conjunto de requisitos que lhes será exigido na sua vida profissional e pessoal: relacionar-se com os outros, aprender a aprender e saber decidir numa base individual e grupal.

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