segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

As funções da avaliação. Avaliar não é classificar, é construir um caminho partilhado.*


*recuperação de um texto de 2014, de minha autoria que andava "perdido"



mudar a avaliação significa mudar a escola”
Perrenoud, 1992 

Independentemente da corrente pedagógica seguida, a avaliação é um elemento chave das escolas e dos sistemas educativos. Para se conhecer é necessário avaliar, e avaliar significa medir, quantificar quer em termos absolutos quer em termos relativos, um ou mais elementos desse sistema. 

No ensino tradicional a avaliação dos alunos é traduzida em testes e exames, que se resumem a um número, numa escala predeterminada e a média dos resultados obtidos ao longo do ano constituem a classificação dos alunos. No final do ano o aluno é classificado de acordo com os resultados que obteve nos testes: “é um aluno de 3, ou de 4 ou de…” é o número e esse número vale pela posição que ocupa na escala de resultados obtidos no universo dos seus colegas, da sua escola, do sistema educativo. A avaliação serve para muita coisa e uma delas, muitas vezes a primeira, senão única, é a classificação dos alunos. É fácil por números numa folha de cálculo, mas é difícil fazer o mesmo com pessoas… 

Outro aspecto da avaliação através de testes e exames é que permite determinar o que é importante e o que é acessório. Se não sai no teste, nem vale a pena dedicar atenção ao assunto. A avaliação na forma de objectivos e metas constitui um programa sobre o programa. Determina o conhecimento válido e a forma válida de o apresentar. O teste inclui ou exclui determinada matéria, a “grelha de correcção” determina o valor da resposta, definindo critérios para a valorização das formas de resposta aceites. 

Por fim a avaliação no modelo tradicional constitui a razão de ser do ensino, da escola e da turma. Ao aceitar que o aluno vale pelas classificações que obtém numa prova que avalia o que aprendeu e que aprender é a razão pela qual está a escola, escola trabalha para que o aluno obtenha sucesso nessa prova. Conhecida a classificação, conhece-se verdadeiramente o aluno. 

A avaliação na perspectiva do MEM é no entanto diferente. A avaliação não é um momento não é o culminar de um processo de aprendizagem nem tem como objectivo principal classificar um aluno. 

A avaliação é um elemento intrínseco ao processo de aprendizagem num contexto cooperativo, pois serve como mecanismo de tomada de consciência, individual e grupal do percurso realizado e ferramenta de decisão, individual e grupal, face ao percurso a seguir. O seu aspecto contínuo torna-a muito mais útil como ponto partida do que de chegada e a sua dimensão colectiva torna-a formadora. 

Encarar a avaliação como uma das dimensões da aprendizagem implica não apenas dar a conhecer os objectivos mas sobretudo fornecer os instrumentos necessários a essa tarefa. O envolvimento dos alunos passa pela participação na determinação de objectivos e pela hetero e auto-avaliação. A avaliação enquanto actividade reflexiva e colectiva choca com percursos pré-determinados e desvaloriza o tipo de classificação procurada no sistema tradicional. Ao construírem colectivamente e em cooperação, entre pares, os seus percursos, os agentes do processo de aprendizagem possuem plena consciência que não são um número obtido numa prova ou exame. 

Ao estabelecerem os seus objectivos e discutirem as suas avaliações (como acontece no conselho) tomam consciência que cada um deles, os seus percursos, as suas áreas de preferência e as suas dificuldades não podem ser reduzidos a simples dígitos. 

Por mais que os queiram sujeitar a exames, os alunos do MEM sabem que não cabem em folhas de cálculo. A mera avaliação externa, que lhes é alheia e resumida à sujeição a um inquérito escrito na forma de uma dezena de perguntas nunca lhes trará mais informação que o trabalho (e que trabalho!) que realizam diária e semanalmente ao longo do ano. 

Os alunos do MEM têm consciência do seu valor, porque aprenderam a decidir os seus objectivos e reflectiram sobre os seus progressos… e isso é assustador para quem possua uma visão contabilística da educação, em que os alunos cabem numa quadricula de uma qualquer tabela de dupla entrada.

Adenda

Ao contrário de outros métodos construtivistas, a avaliação realizada de acordo com o modelo do MEM não é centrada na criança. É centrada no coletivo da turma, por defender que a aprendizagem, assente na autonomia só é consistente e efetiva se for complementada pela responsabilidade para com o grupo. A dimensão social da aprendizagem apenas tomo significado no contexto das relações: aprendemos com e para os outros, e o sucesso do outro é o melhor indicador do próprio sucesso.

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