segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A culpa não é da escola.

A escola é aquilo que fizemos dela. A escola nem sequer é escola, são muitas escolas, quase todas parecidas, mas ainda assim com diferenças quantitativas e qualitativas para que se distingam. Sabemos que o modelo dominante é o da escola de massas, essa que abriu as portas a todos, mas onde o anonimato e o alheamento do outro, professor, funcionário ou aluno, prevalece, onde a qualidade é definida por um rácio, direto e curto de vistas e razões, entre a média das classificações por cada euro investido gasto. É a escola cujos portões a revolução de Abril abalroou fulgurante, abrindo-os de par em par, para depois ser barrada nas portas das salas de aula, das secretarias e apenas podendo espreitar para a sala dos professores como uma se fosse uma visitante atrevida.

A escola que abarrotou de gente e teve que se reinventar para acolher o povo, a escola das duas primeiras décadas da liberdade dividiu-se entre a insuficiência e a ilusão, entre a esperança e a insegurança. Centrando-se nas dificuldades e na incapacidade de olhar para o futuro, o medo venceu e a insegurança viu na ação disciplinadora a âncora que a manteve presa ao que no passado funcionara.
Nas duas décadas seguintes, a falácia comprovou-se e aprofundou-se, pois as premissas apenas permanecem verdadeiras se as variáveis se mantiverem, e não se pode fazer uma escola com futuro com os pés e as mãos agrilhoados ao que já não é, porque o futuro do passado não é o futuro do presente. Quando a escola, nos anos 90, desmoronava de futuro, pintaram-lhe as paredes de fresco, equiparam-nas com coisas do futuro, e ajustaram as velhas roupas do controlo e da disciplina para que o paradigma que funcionara no “antigamente” fosse reparado e voltasse a funcionar. Mas o paradigma nunca esteve avariado, sempre fora concebido, ao longo de séculos, para funcionar de marcha à ré dos sonhos que comandam o futuro.

LOS ORÍGENES DE LAS UNIVERSIDADES



Hoje a escola continua a ser, generalizando grosseiramente, e honra às suas exceções, um caixote de muros e janelas altas, herança da arquitetura sagrada, onde o sonho é prometido e adiado para um futuro póstumo. A escola quer fazer-nos acreditar, à força de marranço, que o futuro morreu, que só aos gloriosos mártires cabe a verdade, mas nós sabemos que nem andando de marcha à ré dos sonhos, a escola pode travar o tempo, e o que precisamos, é de uma escola em que a identidade de cada, em relação com o mundo e os outros, um seja esse invencível motor do futuro onde o sonho chegue primeiro.
A escola não tem culpa, vive embalada de séculos de obediência e veneração aos velhos deuses, do poder, do dinheiro, da divina providência. A escola criou-se providente dos fracos de espírito e sacrossanta luz das suas almas. Nessa missão ergueu seus muros e isolou-se do mundo terreno. Esqueceu-se das pessoas.

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Hoje o mundo inunda a escola, e ela debate-se para conter esse fluxo de mundo e de gente que a quer tomar, que a quer encher de sonho. Quando as suas muralhas de preconceito caírem, quando a escola for feita de gente, ela será futuro, ela será sonho que rasga o medo. A escola será o que fizermos dela. Até lá continuará a debater-se para ser o que sempre foi, enquanto deixarmos.

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