segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A escola entre a degradação e a elitização, em busca de uma nova identidade.

Uma notícia de hoje referia que o número de alunos em ensino doméstico passou de 82, em 2009/10, para 338, em 2013/14. Apesar de o número de alunos face ao sistema educativo ser residual, a evolução destes números é significativa e surge num contexto concreto de degradação da escola pública, de aumento da oferta privada, quer no que se refere a escolas mas também de “centros de estudo”.
No entendimento de Álvaro Ribeiro, o autor do estudo que está na origem desta notícia “Os pais, muitos deles com formação superior e forte espírito crítico, acreditam que é necessário deixar de perpetuar uma educação baseada no controlo, na repressão das emoções, na competição e no sacrifício da felicidade atual”
Este é uma tendência que surge a par de movimentos sociais em Portugal e no Sul da europa, movimentos esses que exigem mudanças sociais, pessoas que procuram soluções alternativas, experimentais, por vezes, que permitam descobrir novos caminhos para uma sociedade que parece esgotada nas soluções para os cidadãos e oferecem uma perspectiva de futuro que defrauda as promessas de progresso que as décadas de oitenta e noventa apresentaram.
Independentemente da evolução que estes movimentos venham a ter, parece claro que permitiram recuperar um vislumbre de esperança para aqueles que se sentem frustrados com as soluções que o presente convencional oferece. Um vislumbre que devolve aos cidadãos a capacidade de exigir um futuro melhor, senão para si, para os seus filhos, mas também o despertar de uma consciência de que, ao contrário da fé na tecnologia e nos mercados de capitais que prevaleceu nas décadas passadas, o futuro que procuram não passa por soluções estandardizadas, pré-formatadas e de carácter burocrático e tecnológico. Hoje a fé está nas pessoas, individuais, anónimas, e na consciência da sua capacidade de fazer pelos próprios meios.
Das ervas aromáticas à cerveja, do artesanato urbano aos aparatos electrónicos, o DIY (do-it-yourself / faz-tu-mesmo) está a tronar-se mais que uma moda, uma afirmação política, um acto de rebeldia perante a dominância dos mercados e do estado.
E a educação não é uma excepção. As políticas da formação ao longo da vida, tantas vezes alimentadas por um mercado especulativo, patrocinadas pelas desregulamentações laborais e uma busca de sucesso avaliada pelo “ter” alimentaram a fornalha da urgência do ser como valor pessoal. Um ser que se passou a querer não só melhor, mas sobretudo diferente, num difícil equilíbrio entre o individualismo e o global, a afirmação individual aliada á necessidade e capacidade de produzir soluções próprias, contraposta a uma agudização da crítica ao “sistema” levaram a um, pelo menos aparente (e parcial) semi-abandono do status quo colectivo, e simultaneamente dos mecanismos especulativos e representativos. A acção directa, individual ou em pequenos colectivos (mas capazes de mover multidões) parece estar na ordem do dia e com ela novas formas de organização social e de representação e construção de indefinido social desejado, inverso ao oferecido.
No imediato, o caracter limitado dos que optam pelo abandono da escola (publica ou privada) na demanda de uma educação DIY não ameaça nem o mercado dos privados nem a coesão da escola pública. Os que buscam esta solução são os que podem, o que têm a formação (superior), a disponibilidade temporal - a elevada taxa de desemprego entre licenciados não será alheia à adopção desta escolha, e disponibilidade de recursos – pois trata-se de um fenómeno que se verifica nas grandes cidades ou por parte de pessoas que aí viviam e partem em busca de uma nova ruralidade mas que transportam consigo a experiencia urbana, rejeitando-a, numa tentativa de regresso a uma vida mais tranquila e, alegadamente, mais “humana”.
Simultaneamente, assiste-se a uma escola que vai mudando para que tudo fique mais ou menos na mesma, ou seja, continue uma “racionalização de recursos”, físicos e humanos, acompanhada de uma escalada dos meios de “avaliação” e monitorização, formas convenientes à “execelização” do sistema educativo tão adorada pelos pensantes do Ministério da Educação e Ciência que vai sacudindo da via escolar os que hão-de ingressar numa vida profissional à medida das necessidades dos mercados: com poucas expectativas e menores direitos.
A escola costuma-se dizer com alguma propriedade, pouco ou nada mudou em cem anos, com a ressalva para a democratização no acesso e o prolongamento da escolaridade obrigatória, e já há cem anos o ensino doméstico era uma opção frequente entre as classes mais abastadas e esclarecidas, que dispunham do tempo, dos meios e das razões para renunciarem a uma via normalizadora e que retirava à família o controlo estrito dos ensinamentos e dos valores transmitidos aos alunos.
Hoje a rejeição dessa via normalizadora, castradora para muitos, 40 anos depois da democratização da escola, parece ir ganhando força. São já cerca de três centenas de famílias, só em Portugal, que passam um atestado de óbito à escola, ainda que sujeitando-se às regras fundamentais curriculares e de avaliação, um preço a pagar pela não exclusão total do sistema.
As tentativas de equilíbrio entre o centralismo educativo e a autonomia são parca e torpes. A escola parece desvirtuar o que tem de bom: o acesso, a gratuitidade, a multiculturalidade da escola pública, pela satisfação dos clientes, que querem exclusividade e excelência, algo que os rankings de escolas parecem favorecer ao fornecer a informação necessária à livre escolha e à segregação. É a educação mercantilizada, em que o dinheiro assegura o acesso a privilégios para quem o tem e remete para a mole plebeia o resto dos problemas, que parecem ser exponencialmente inversos aos recursos atribuídos.
“Execelizada”, mercantilizada, segregadora, esta educação não serve, e apenas os que não têm alternativa, por falta de razões, meios ou disponibilidade nela permanecem. Ou então os outros, os idealistas que sonham com uma educação pública, gratuita e de qualidade, integradora e plena de cidadania. Uma escola viva. Mas esses estão atulhados em burocracias e frustrações de quem quer ser e apenas pode ter um poucochinho de ser educador.

Não querendo cair em lugares comuns, parece-me que tal como noutros âmbitos, a escola está a deixar de ser capaz de decidir o seu futuro. Entre políticos burocratas, empreendedores mercantilistas e pais desiludidos, a escola como a conhecemos será em breve posta em causa, e as suas funções educativas serão assumidas por aqueles que tiverem a coragem de construir o seu próprio caminho de forma colectiva e de igual para igual, dando à educação a sua real importância e não a de coisa secundária que sirva interesses de terceiros.

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