quarta-feira, 2 de abril de 2014

A filosofia Waldorf e as opções pedagógicas

Neste meu périplo pelos métodos e opções pedagógicas de orientação mais activas e centradas na criança – as que compõem o odiado arco do eduquês de Nuno Crato, para simplificar – existe uma onde nunca me atrevi a “por o pé” e que num certo sentido representa talvez a opção mais radical do ensino centrado na criança, colocando-a, e à sua liberdade (quase) como valores supremos na escala dos valores em que se baseia. Falo do Método Waldorf. Resta-me declarar em minha defesa que não sou especialista nem tenho qualquer contacto directo com escolas que utilizam este método, e o presente texto apenas resulta da informação disponível, pelo que a sua fiabilidade é relativa.

Começaria por afirmar que o “Método Waldorf” não é na realidade um método, mas sim uma filosofia, uma vez que prescreve não apenas técnicas, metodologias e objectivos mas também conteúdos e princípios que ultrapassam bastante a dimensão pedagógica e escolar. A razão para tal é simples e coerente com os seus objectivos: o “Método Waldorf” é dos poucos, se mais algum houver, que não procura educar a criança tendo como referencia a sociedade, nem sequer na perspectiva da sua transformação, como é o caso das pedagogias libertáriasO “Método Waldorf” tem como referência o universo nas suas várias dimensões, física, anímica e espiritual e entende a criança como uma das maravilhosas manifestações desse universo, e será da tensão entre a criança e o universo, através do desenvolvimento integral e livre da primeira e o respeito pleno pelo segundo na sua magnitude que se concretizará a “nova sociedade”, uma sociedade de liberdade, plena de paz e espiritualidade em que a harmonia universal é possível.

Para tal Rudolf Steiner, o criador desta metodologia, concebe em 1919, a pedido de Emil Molt, o Presidente da fábrica de cigarros Waldorf-Astoria, uma metodologia que irá aplicar na escola criada para os filhos dos trabalhadores da fábrica. Nesta altura Steiner era secretário-geral da Sociedade de Teosofia (que fora fundada por  Helena Blavatsky), função que desempenhou durante cerca de 15 anos. A Sociedade de teosofia sofre uma cisão e Steiner passa para nova Sociedade de Antroposofia, uma visão e vivência holística do mundo, centrada não em deus mas no homem, e que servirá de arquétipo do método pedagógico Waldorf.



O currículo de Waldorf divide-se em dois ciclos de sete anos cada. Durante o primeiro a criança deve adaptar-se ao universo que a acolhe, sendo dada total liberdade às suas potencialidades inatas e a veneração da natureza na sua magnificência. Os conteúdos académicos e o raciocínio abstracto não são contemplados, por forma a respeitar o natural desenvolvimento individual da criança, que é convidada a expressar-se através das diversas artes e emoções. Procura-se neste ciclo que a criança conheça a Beleza.

O segundo ciclo introduz o raciocínio científico através das vivências pessoais, para tal é incentivada a observação e a reflexão do universo (nas suas várias dimensões: física anímica e espiritual), em busca da sua Verdade.



Na sua forma mais “pura” o “Método Waldorf”, enquanto herdeiro da teosofia e baseado da antroposofia é religioso, no sentido lato da palavra. Assume o universo como uma entidade viva e que deve ser adorada, e integra nas suas práticas quotidianas rituais cerimónias e cultos pré-cristãos, em particular a celebração dos solstícios e equinócios, o que aliás se integra na estrita ligação aos valores ecológicos e contacto próximo com a natureza, traduzido não só mas também em hortas biológicas cultivadas pelos alunos – e o quase repúdio pelas tecnologias - característico das escolas que adoptam este método. Nos conteúdos, as lendas e mitologias constituem uma parte importante dos temas trabalhados. A antroposofia inclui ainda na sua concepção do desenvolvimento da humanidade e do individuo a reencarnação como explicação dos percursos e características individuais, integrando-a na sua metodologia e práticas.


Como muitas das metodologias comumente definidas como “alternativas” o “método Waldorf” sofre frequentemente várias adaptações e mutações, não havendo uma entidade “fiscalizadora” da sua correcta aplicação, muito embora existam institutos específicos para a formação de professores nesta metodologia é frequente as escolas recorrerem a professores provenientes de metodologias similares (MEM, Montessori, Dewey) e as suas práticas serem mais ou menos adaptadas às crenças, necessidades e desejos da comunidade escolar. O facto de se tratarem quase exclusivamente de escolas privadas favorece esta flexibilidade. Uma das características frequentes nestas escolas é o vegetarianismo, o que, entre outras características as torna uma solução óbvia para os filhos dos adeptos deste regime alimentar.
O Método Waldorf encontra-se disseminado por quase todo o mundo e em franca expansão, a procura de formas alternativas de viver, mais próximas dos valores ecológicos, e de uma espiritualidade “moderna”, aliada a valores como a liberdade individual e o afastamento dos valores materiais tornam estas escolas um polo de atracção para vários pais.

Existem algumas questões que devem ser colocadas quando se equaciona o “Método Waldorf” como via para educação. E aqui termina a minha capacidade de imparcialidade face a este “Método”. 
Em primeiro lugar creio que se deve questionar  a liberdade como valor absoluto, seja em que idade for. A Liberdade é um valor, uma prática e uma vivência que apenas tem sentido quando existe a par da responsabilidade. Um adepto de Waldorf dirá que a responsabilidade de cada um é devida ao “Universo” enquanto dimensão sagrada e espiritual. Embora respeite a opção e a crença, eu discordo, pois não existe uma paridade entre o individuo e um universo “sagrado”, logo a relação de igualdade é injusta e compromete a liberdade individual que está sujeita à dimensão sagrada das regras universais.

Decorrente desta questão está o respeito pelo outro e pelos outros, a dimensão social da educação que é quase ausente nas práticas e omitida nos princípios do método. Ao colocar a enfase de forma tão absoluta entre o desenvolvimento individual e o “universo sagrado”, o relacionamento dentro dos pequenos grupos e o relacionamento com a sociedade são desvalorizados no processo educativo. Creio, e assumo que pode ser preconceito meu, que a actual sociedade é vista como algo exterior e adverso, pois não partilha dos valores de “Waldorf”. Podendo estar a ser injusto, receio que exista algum preconceito religioso de parte a parte, com consequências nada benéficas para o processo educativo. Seja ou não o caso, acredito que o desligamento entre os ensinamentos da escola Waldorf e a sociedade constituem uma lacuna e um erro, pois o homem é antes de mais um ser social e realiza-se em sociedade.
A questão da religiosidade. Se por um lado o respeito pelo universo e pela natureza constituem um enriquecimento das actividades lectivas, enquadrar essas práticas numa dimensão sagrada remete esses aspectos para fora do que considero ser o contexto pedagógico escolar adequado. Independentemente das crenças de cada um, eu defendo que a religiosidade deve pertencer ao foro doméstico e familiar. Por uma única razão: o respeito pela liberdade individual. Uma escola que não respeita a religiosidade (ou ausência dela) de cada aluno e família é uma escola exclusiva, que não procura integrar a diferença e vê nela algo que lhe é estranho adverso. A escola deve promover não só a respeitar a diferença como a aprender e crescer com ela. E as escolas Waldorf deviam saber isso melhor que as outras.

O vegetarianismo, que aliás é uma característica que não corresponde à versão original do método. A questão é similar à anterior, enquanto que um hominívoro como carne, peixe e vegetais, o vegetariano só come vegetais (eventualmente leite e ovos). É um processo de exclusão. Se nas escolas Waldorf a liberdade da criança é respeitada e a variedade de formas de expressão – música, dança, artes plásticas etc, são altamente incentivadas, quando chegam à mesa em muitas destas escolas essa liberdade está coarctada, carne e peixe são inexistentes. Além disso eu acredito que é irresponsável retirar da alimentação infantil as fontes proteicas necessárias ao seu desenvolvimento físico, intelectual e até cultural, mas como poderão imaginar, não sou nutricionista…


A questão da autoridade. Este é um aspecto fundamental em qualquer escola e que não consegui esclarecer por completo, mantendo muitas dúvidas sobre a forma de tratar a autoridade nas escolas Waldorf. Por um lado a liberdade da criança é, sobretudo no primeiro ciclo, um valor intocável. Por outro lado existe uma dimensão sagrada e espiritual, o que por si só significa a existência de dogmas, verdades inquestionáveis e portanto a falta de liberdade para as colocar em causa. Do outro lado a responsabilidade do homem existe na medida da liberdade do outro. Se a liberdade do outro for absoluta, onde fica a minha? Mais, quem medeia o conflito, uma vez que o grupo não tem dimensão social e o professor não deve limitar o aluno? São muitas questões e profundas que ficam (para já) sem resposta mas que merecem a minha desconfiança.

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